Acessibilidade: como os esports podem incluir pessoas com deficiência auditiva?

Como normalmente é dito, o cenário dos esports vive em constante crescimento, com cada vez mais marcas e pessoas aderindo ao mesmo de alguma forma. Mas, mesmo com o esporte eletrônico se mostrando como um meio que “tem lugar para todo mundo”, ainda ocorre a falta de acessibilidade. Em 2020, foi apontado que 5% da população brasileira era composta por pessoas com deficiência auditiva, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). 

Em outras palavras, são mais de 10 milhões de pessoas, com 2,7 milhões delas possuindo surdez profunda. Nos esports, a falta de acessibilidade também é um problema. Embora existam projetos de inclusão, a ausência de legendas e de intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) nos campeonatos ainda prevalece. 

O Globo Esporte (ge) entrevistou, entre outras pessoas, a tradutora e intérprete de Libras Jessyka “suuhgetsu”, a streamer e caster Mila Ayleen e o CEO da Arena On Douglas Dubal para entender a importância de realizar transmissões com legendas e intérpretes, bem como em campeonatos presenciais, além de questionar sobre planejamentos futuros por parte das empresas.

A audiência cresce, mas a acessibilidade não acompanha o mesmo ritmo 

Segundo a Newzoo, a audiência dos jogos eletrônicos em 2019 atingiu um número de 453,8 milhões de pessoas no mundo todo. No Brasil, no ano passado, o número foi próximo de 24 milhões de espectadores. Mas, para que os números cresçam, é preciso trabalhar para chegar até grupos que normalmente são excluídos da sociedade, mostrando que estes também são bem-vindos no meio.

Segundo dados estimados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 900 milhões de pessoas podem desenvolver surdez até 2050. Atualmente, são 500 milhões de pessoas com alguma deficiência auditiva no mundo, que ainda têm suas vidas dificultadas pela falta de serviços básicos.

É importante lembrar que a deficiência auditiva se dá em diferentes graus; no Brasil, a maior parte desse grupo é composta por surdos oralizados, que se comunicam com a língua oral e/ou usam aparelhos auditivos.

Com o cancelamento de eventos presenciais de esports em decorrência da pandemia, os campeonatos via internet se mostraram com a alternativa para os jogadores e para a audiência deste tipo de evento.

Porém, em meio a essa alta na demanda por streaming, jogadores e entusiastas surdos ainda passam pela mesma situação em diversas áreas: não tem acessibilidade. Em entrevista ao ge, Mila Ayleen, streamer com surdez severa, contou sobre a sua experiência em eventos presenciais de LoL.

“Comecei a jogar League of Legends em 2015. Logo depois que eu comecei, em Goiânia teve o All-Stars e eu fui. A partir daí eu comecei a acompanhar o CBLoL. Todo fim de semana eu estava lá esperando eles abrirem a transmissão e ficava assistindo do começo até o final. Quando eu fui no evento em Goiânia, eu fiquei arrepiada, sabe? Com a emoção do público, com a energia”, revela Ayleen.

A streamer explica que quando foi ao Campeonato Brasileiro de League of Legends, o CBLoL, teve que recorrer ao telão e a reação da torcida para entender os lances:

“Eu já fui no CBLoL também. Eu entendia a transmissão um pouquinho só, mas com muita dificuldade. Por eu estar em um evento presencial, dava para perceber a energia, a vibração e eu meio que conseguia entender o que estava acontecendo. Eu entendia um pouco o que eles estavam narrando, mas eu me guiava mais pelo telão e pela reação da torcida”, explica.

Mila Ayleen, streamer da INTZ — Foto: Arquivo pessoal
A streamer Mila Ayleen possui surdez num grau mais severo, o que dificulta o entendimento de alguns lances nos esports

A criadora de conteúdo também falou sobre como é acompanhar uma transmissão de campeonato sem legenda ou com intérprete de Libras; como possui surdez severa, a streamer não entende os casters se não estiver usando o aparelho auditivo.

“É complicado, porque não tem legendas, não tem intérprete de Libras… Para mim é melhor a legenda, eu sei Libras, mas bem pouquinho. E também não é sempre que eu estou usando o aparelho auditivo, então os campeonatos sem recurso de acessibilidade são complicados”, detalha.

Mas, por outro lado, a comunidade surda nos esports passa a ganhar cada vez mais seu espaço com projetos de inclusão, com streamers grandes usando recursos de acessibilidade e também com o interesse das organizações. Dessa forma, legendas e intérpretes de língua dos sinais em transmissões de campeonatos se tornam algo obrigatório, considerando-se o público que os esports possuem.

No Brasil, os números falam por si: a final do CBLoL no ano passado chegou a quase 400 mil espectadores simultâneos, nas plataformas de Twitch e Youtube. Considerado um dos maiores nomes do Counter-Strike no mundo, Alexandre “Gaules” também atingiu a marca de 270 mil espectadores em seu canal no ano passado, durante a partida entre MIBR e EG pela BLAST Premier Spring norte-americana. 

Como tornar as transmissões mais inclusivas?

Considerando-se todos esses e outros números, quantas pessoas surdas não puderam acompanhar momentos como estes pela falta de acessibilidade?

Pensando nisso, criadores de conteúdo de diversas plataformas estão em busca da acessibilidade para o seu público, como a apresentadora Nyvi Estephan e o streamer Daniel “danielslol”. Em conversa com o ge, suuhgetsu, intérprete de Libras que já trabalhou para organizações como Rensga Esports, Rise Academia, Sakuras Esports e Wakanda Stramers, explicou a importância de ter um tradutor e intérprete de Libras nos torneios de eSports.

“É muito importante porque todo mundo tem direito a lazer. Porque parece que o surdo só tem direito a estudar. O surdo não pode fazer outra coisa que seja estudar”, explica ela, que ainda é criadora do Dicionário de Libras dos esports.

“O surdo não pode ir no cinema porque não tem acessibilidade, aí o surdo não pode vir aqui jogar LoL, não pode ver o CBLoL ou ele não pode acompanhar uma live. Todo mundo tem direito a lazer e assim tem direito a informação. Olha quantas pessoas assistem uma transmissão de jogo e quantas pessoas jogam. Então é muito importante que tenha acessibilidade no geral e acessibilidade em Libras também. Porque existem diversas acessibilidades, uma é a estrutural que depende da estrutura física do local e a linguística, que seria o intérprete de Libras e também as legendas”, argumenta.

suuhgetsu, intérprete de Libras nos eSports — Foto: Reprodução
Suuhgetsu é intérprete de Libras, já tendo feito diversos trabalhos na área de esports

Suuhgetsu falou a respeito dos recursos de acessibilidade que estão disponíveis nas plataformas de streaming, bem como as funções que elas exercem em diferentes camadas do público de esports.

“Legenda e intérprete de Libras são dois recursos de acessibilidades diferentes. Muitas pessoas acham que quando tem legenda, não precisa de intérprete de Libras e não é assim que funciona. Porque a interpretação de Libras é para surdos usuários de Libras, a legenda abrange uma acessibilidade muito maior. Porque ela funciona para pessoas com baixa visão, pode funcionar para surdos que são usuários de português, surdos oralizados, pode ser com pessoas para dislexia. Então tem uma gama muito maior de pessoas que podem utilizar o recurso da legenda”, detalha a intérprete.

A tradutora e intérprete de Libras defendeu as legendas automáticas em streams, mesmo que as legendas contenham erros. Suuhgetsu também explicou a diferença entre legendas descritivas, automáticas e closed captions e reforçou: qualquer pessoa pode usar as legendas automáticas nas lives da Twitch.

“Tem a legenda para surdos e ensurdecidos que é a legenda descritiva. Ela descreve o ambiente também, descreve os sons. Não é uma áudio-descrição porque não descreve totalmente o ambiente. Aparece por exemplo, “barulho de carro freando”, “barulho de pássaros cantando”. Isso é uma legenda descritiva. A legenda que estamos acostumados é só a transcrição dos diálogos para outro idioma. O closed captions, ele é uma legenda automática então ele nunca vai ser 100%, porque é um computador que está fazendo, não um ser humano”, completou.

Projetos, organizações e campeonatos de inclusão

Deaf e-Sports League

Surgida em 2016, a Deaf e-Sports League foi fundada por Vanderley “vaneov”. A liga voltada para o público surdo realizou torneios de Dota 2, CS:GO e League of Legends. 

Além das modalidades, a liga também contou com participantes de outros países da América do Sul, como Chile e o Peru. As ligas chamaram atenção do público, principalmente por contarem com premiações em dinheiro. Embora tenha fechado as portas em 2018, a Deaf e-Sports League abriu caminho para vários projetos semelhantes.

Liga dos Surdos

Em julho de 2019, André “Nerd Surdo” e Philipe “Lipex9O” criaram a Liga dos Surdos. A dupla é surda oralizada; Lipex9O é fluente em Libras, enquanto Nerd Surdo ainda está aprendendo a língua, por ter nascido ouvinte e sido alfabetizado em português.

Vale citar que os antigos membros da Deaf fazem parte desse coletivo hoje, que conta com um quadro de intérpretes de Libras, que será expandido para que mais pessoas da área ajudem para a inclusão de Libras no cenário. A Liga conta com três intérpretes de Libras: a já citada suuhgetsu, além de Ana Paula Perez e ArienTradutora.

O coletivo promove campeonatos voltados aos jogadores surdos, já tendo produzido torneios de Fortnite e CS:GO, sendo que este veio em parceria com a Gamers Club, no final de 2019. O mais recente foi o Press Start, realizado em fevereiro de 2021.

A Liga dos Surdos contempla LoL, CS:GO, Fortnite, Valorant, Teamfight Tatics e, em breve, Wild Rift. O coletivo conta com o apoio da própria Riot Games nas premiações em RP, além de se destacar nas redes sociais da publisher quanto no próprio lobby do jogo como forma de apoio. Ainda sobre o MOBA, a Liga foi responsável por criar o sinalário de League of Legends.

André se destaca também por ser streamer e apresentador de eSports com foco em público surdo e ouvinte. Nerd investe em outros projetos, sendo o mais recentemente a Carteirinha da Liga dos Surdos:

“Atualmente, pra conhecer melhor o público surdo, estamos testando e realizando um sistema de carteirinhas para os jogadores surdos para ampliar nosso conhecimento sobre os nosso jogadores e entender as melhores formas de ampliar as necessidades de nossos jogadores”, conta.

Significados e tradução para Libras dentro dos jogos

O intérprete de Libras trabalha com a mesma função do narrador, mas traduzindo acontecimentos e falas da partida para o público surdo. Embora pareça fácil, não é: o intérprete precisa ter conhecimento prévio sobre o jogo, bem como capacidade de adaptação.

Um exemplo são as situações em que não há uma palavra específica para um acontecimento. Suuhgetsu revelou como é quando está trabalhando como intérprete e quando não existe um sinal para a palavra específica:

“A gente usa diversas estratégias e escolhas tradutórias também. Por exemplo, você pode explicar o conceito. Isso a gente também utiliza para as palavras que têm o sinal. Se eu não sei o sinal, mas aquela palavra foi falada, aquela informação tem que ser dada. Eu trago o conceito, eu explico o que é da forma que seja entendível”, explica ela.

Mas, alguns jogos ainda não tem seus sinais definidos, exigindo da criatividade e do raciocínio:

“O Valorant, ainda não tem um sinalário, então você pega características dos personagens e traz em um classificador que seria uma reprodução visual. Por exemplo, é o cara de capuz roxo que mexe com as sombras, então eu incorporo ele, coloco o capuz em mim, digo que é roxo para o público e faço um movimento característico dele”, detalha.

Em jogos como League of Legends, os acontecimentos são rápidos como num jogo de futebol, o que exige conhecimento prévio do intérprete. Quando é necessário explicar algo para o público, por exemplo, é um desafio: 

“Caster tem muita jogadinha de fazer piada e às vezes na Libras aquilo não faz sentido nenhum porque é da cultura ouvinte. Assim como os narradores tem um estudo antes, a gente como intérprete também tem esse estudo”, finaliza suuhgetsu.

No Brasil

Douglas Dubal, CEO da Arena On – maior plataforma de campeonatos de Call of Duty: Warzone e CoD Mobile da América Latina – citou a adição de alguns recursos de acessibilidade para a plataforma de streaming da Arena, lembrando que os vídeos no canal do YouTube já contam com legendas automáticas.

“A gente quer expandir para as outras áreas como Twitch. Dentro da nossa plataforma, a gente quer expandir essa inclusão para outros meios. Estamos trabalhando desde fevereiro para trazer isso para a Twitch. As legendas automáticas às vezes ela fica engessada e coloca uma palavra que o narrador não falou, então nos nossos vídeos de Twitter ou Instagram a gente quer começar a legendar eles para atender o público surdo”, revela Dubal.

Acessibilidade nos eSports: a importância do uso de Libras | esports | ge
Empresas como a ArenaOn, parceira da BTS Brasil, pensam em usar a tradução para Libras como forma de conscientização da comunidade

Quando questionado sobre a possibilidade de um intérprete de Libras em um campeonato como o que será realizado juntamente com a BTS Brasil e a Max Arena, Douglas explica que a ideia é conscientizar a comunidade sobre isso:

“A gente quer engajar a comunidade para entender que essa é uma necessidade porque aí gente faz muito mais. Além de contratar um intérprete de Libras, por exemplo, a gente conscientiza a nossa comunidade. É nessa vertente que a gente quer trabalhar, de conscientização, de entender o problema e partir disso, se engajar para melhorar as transmissões e eventos para essas pessoas, porque aí a gente muda a cultura elitista de uma comunidade que às vezes não olha para esse lado. Então queremos ser a vertente de modificação de pensamento, de melhoria do cenário através da comunidade”, conclui.

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Texto por Vitor Santos

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